A chuva caía ferozmente na vila,
resfriando o clima e dando um aspecto de desolação aquela vila de tons cinza.
As ruas desertas, pelos bueiros uma fumaça fedorenta escapava, formando uma
pequena neblina, mas todos se escondiam em suas casas, deixando apenas as
lâmpadas acesas na frente. Se as pessoas da rua olhassem para fora de suas
janelas naquele exato momento, talvez conseguisse enxergar aquele vulto andando
pelas ruas desertas. Seu andar era lento e confiante, parecia conhecer bem
aonde queria ir, ele parou na frente de uma casa que parecia uma réplica das
casas ao lado, era um bairro de classe baixa, assim todas as casas eram
projetadas para serem apertadas e de andar, uma igual a outra. Como se dizia
que a individualidade só pertencia aos ricos.
Havia um suporte para um letreiro em cima
da porta, obviamente se tratava de uma casa comercial, as pessoas podiam morar no
segundo andar e fazer seus negócios no primeiro, assim economizando espaço. O
homem bateu três vezes na porta e esperou. Ao ver que notar que ninguém ouvira
voltou a bater até que ouviu alguém ir bastante mal-humorado para a porta. Quem
abriu a porta foi um senhor de idade e corcunda, as rugas estava por toda a
parte e o cheiro de velho e mal cuidado era forte ali na porta, O idoso quase
não tinha cabelo e sua mão tremia pelo esforço de segurar aquele lampião.
─Já estou aqui, Miserável! Quem bate a
minha porta a essa hora da noite.
O velho de seu ponto de vista só permitia
ver o peito do homem, assim forçou a levantar o braço e erguer a cabeça, um
gesto bem vagaroso. Seus olhos saltaram de órbita quando reconheceram aquele
rosto bruto, havia uma barba crescendo, mas aquele olhar era inconfundível, sua
pele ficara ainda mais branca e sob a luz do lampião dava a impressão que o
espírito do velho acabara de aparecer.
─Você...?!
─Surpreso? ─disse o homem.
O velho logo se recompôs e acenou com a
cabeça e mostrou um sorriso com cinco ou seis dentes faltando. Sua língua
asquerosa molhou os lábios antes de falar ainda sorrindo pela piada.
─Até que não estou surpreso, quem diria
que você voltaria.
─Posso entrar?
─Claro, venha logo e feche a porta.
Os dois entraram no pequeno cômodo, era
uma pequena sala com sofás em forma de L na parede ao lado da porta, passaram
para outro cômodo onde havia uma mesa circular e três lugares, um servindo para
olhar os dois, alguns lampiões nas paredes e um velho quadro. Teias de aranhas
e poeira estavam em todas as partes, havia ainda duas passagens, a esquerda
daria para escada circular que levaria para o segundo andar onde ficava o
quarto e a da direita uma pequena cozinha com o necessário para sobreviver.
─Pelo estado do lugar e o cheiro acredito
que você tem passado por muito tempo por aqui. ─disse o homem deixando seu
pesado casaco de couro na cadeira, escorrendo a água sobre o piso de madeira. O
homem se vestia com elegância duas camisas uma preta por baixo que davam nas
luvas e por cima um colete vermelho, não usava gravata.
─O que esperava? Você desapareceu de uma
hora para outra e simplesmente não devia deixar um imóvel em tão boa situação
para os cães do governo não é?
─Bom estado? ─com um dedo ele empurrou a
mesa que ficou balançando para cima e para baixo.
─Nada que uma boa reforma não adiante. Mas
o que trás de volta?
O homem hesitou e por fim deu de ombros.
─Não sei ao certo, só senti que eu deveria
retornar. E agora que retornei, eu tomo de volta o que é meu, ou você se opõe?
─HAA. Eu estou velho e caduco, não me
oporia a você em tal situação, vai passar a noite aqui, eu presumo, a chuva
está forte.
O homem pareceu hesitar, antes de
concordar com a proposta.
─De acordo. Você sabe onde eu possa alugar
um local para ficar?
─Claro por um preço você pode ter qualquer
coisa. Vou lhe arrumar logo pela manhã. Mas é claro que vou precisar de um
seguro contra sua pessoa e dinheiro vivo e corrente, não quero o seu ouro
maldito.
“Judeu esperto. Pelo menos não terei lidar
com você amanhã.” O homem começou a examinar a prateleiras e armários, na sala
estavam vários livros deixados por toda a parte, na cozinha encontrou pouco
alimento aproveitável para alimentação, lembrou-o de ir ao mercado no dia
seguinte, ele sorriu ao pensar como seria que a população iria sentir ao vê-lo
na cidade, ele fez um sanduíche com os ingredientes aproveitáveis e sentou para
comer, o idoso pegou um bule e fez duas xícaras de chá, o cheiro era melhor do
que o gosto, mas para uma noite fria serviria.
─Por que voltou a cidade? ─disse o velho.
─Quem sabe? Apenas senti que era a hora de
voltar.
─Você tem certeza que já pode voltar? As
pessoas aqui ainda não se esqueceram de você.
─Não posso fazer nada. Eu vou aonde tem
trabalho a ser feito.
Um silêncio tomou conta do cômodo
revelando que o homem havia falado mais do que devia.
─Trabalho? Não me diga que estamos
correndo perigo. Eu sei que tipo de perigos você costuma atrair.
─Vocês?! Não me faça rir, essa cidade
amaldiçoada já tem seus próprios problemas, que nem precisa de mim para piorar.
─Mas se me lembro bem, você piorou tudo,
de maneira catastróficas. Foi por isso que os anciões expulsaram o da cidade.
─Vocês só veem os danos que eu fiz,
ninguém sequer notou que praticamente limpei a cidade da presença deles?
─Não vou discutir os seus métodos com você
essa noite, amanhã sim, mas hoje não. Por onde esteve por todos esses anos?
─Por aí, fui praticando a minha arte,
estudando outras culturas e conhecendo pessoas. Claro que não sou bem vindo,
minha profissão nunca é bem aceita, mas ainda sim necessária por esses dias.
─Quem dera que um dia você não seja mais
útil.
─Mas me fale de você seu velho raquítico.
Como está o seu negócio?
O idoso deu um seus sorrisos de alegria e
começou a falar sem parar sobre as mercadorias, sobre as dívidas e sobre como a
vida andava dando pequenas surpresas. O homem ouvia tudo o que o velho dizia,
não por que se importava, mas por que mantinha a cabeça em outro lugar, longe
da missão que o levara a regressar a cidade que o expulsou. Aos poucos o homem
notou que o idoso se desviava do assunto principal, em uma pausa o homem disse:
─E Undine? Está bem?
O sorriso do velho desapareceu como se ele
tivesse usado uma maldição.
─O que houve com ela?
─Não tenho certeza se eu devo contar.
─Como assim?! ─o homem se levantou
colocando todo o peso de sua presença na sombra daquela velha criatura.
─Pode me ameaçar, você sabe que eu não
tenho nada a perder.
─Você vai descobrir que tem muito a perder
se for de em contra a mim, velho.
O velho bufou e se jogou em uma cadeira,
nem barulho de ossos estralando foi suficiente para diminuir a tensão no
cômodo.
─OK, você venceu. Eu sou apenas um velho
raquítico e apodrecido pelos anos, a única coisa que espero é ter minha
juventude de volta quando eu morrer, mas sei do seu potencial em desviar os
caminhos das pessoas. Undine ficou desolada com a sua partida, seu pai a teve
que trancar em um quarto sem nada que ferisse, e olha que ela tentou viu? Soube
que todas as noites era uma batalha dentro da casa dos Flineraz.
Ouvi aquela narrativa acertava o homem com
um peso no coração.
─Undine, então... ─continuou o velho, meio
hesitante. ─Ela disse que a cidade pagaria por renegar você e fugiu para a
floresta. Tentamos localizá-la, mas você sabe que mistérios encontram-se
naquela floresta.
─Então ela está desaparecida na Floresta
Proibida?
─Isso.
─E as criaturas que ali vivem?
─De vez em quando veem a cidade roubar
nossas colheitas e fruto do nosso trabalho, mas nada fora do usual, de vez em
quando passa um caçador por essas bandas, mas não conseguimos encontra-la.
─Você acha que ela... ─era difícil
pronunciar tal coisa.
─Não sei, pivete, e se tem uma coisa é que
eu sei é que as pessoas que se metem com a Floresta não voltam, bom tirando
você, é claro.
O homem sentou pensando no que o velho
tinha lhe dito. Seus pensamentos se encontraram com Undine, uma mulher de seu
passado.

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