sábado, 7 de junho de 2014

O forasteiro



A chuva caía ferozmente na vila, resfriando o clima e dando um aspecto de desolação aquela vila de tons cinza. As ruas desertas, pelos bueiros uma fumaça fedorenta escapava, formando uma pequena neblina, mas todos se escondiam em suas casas, deixando apenas as lâmpadas acesas na frente. Se as pessoas da rua olhassem para fora de suas janelas naquele exato momento, talvez conseguisse enxergar aquele vulto andando pelas ruas desertas. Seu andar era lento e confiante, parecia conhecer bem aonde queria ir, ele parou na frente de uma casa que parecia uma réplica das casas ao lado, era um bairro de classe baixa, assim todas as casas eram projetadas para serem apertadas e de andar, uma igual a outra. Como se dizia que a individualidade só pertencia aos ricos.
Havia um suporte para um letreiro em cima da porta, obviamente se tratava de uma casa comercial, as pessoas podiam morar no segundo andar e fazer seus negócios no primeiro, assim economizando espaço. O homem bateu três vezes na porta e esperou. Ao ver que notar que ninguém ouvira voltou a bater até que ouviu alguém ir bastante mal-humorado para a porta. Quem abriu a porta foi um senhor de idade e corcunda, as rugas estava por toda a parte e o cheiro de velho e mal cuidado era forte ali na porta, O idoso quase não tinha cabelo e sua mão tremia pelo esforço de segurar aquele lampião.
─Já estou aqui, Miserável! Quem bate a minha porta a essa hora da noite.
O velho de seu ponto de vista só permitia ver o peito do homem, assim forçou a levantar o braço e erguer a cabeça, um gesto bem vagaroso. Seus olhos saltaram de órbita quando reconheceram aquele rosto bruto, havia uma barba crescendo, mas aquele olhar era inconfundível, sua pele ficara ainda mais branca e sob a luz do lampião dava a impressão que o espírito do velho acabara de aparecer.
─Você...?!
─Surpreso? ─disse o homem.
O velho logo se recompôs e acenou com a cabeça e mostrou um sorriso com cinco ou seis dentes faltando. Sua língua asquerosa molhou os lábios antes de falar ainda sorrindo pela piada.
─Até que não estou surpreso, quem diria que você voltaria.
─Posso entrar?
─Claro, venha logo e feche a porta.
Os dois entraram no pequeno cômodo, era uma pequena sala com sofás em forma de L na parede ao lado da porta, passaram para outro cômodo onde havia uma mesa circular e três lugares, um servindo para olhar os dois, alguns lampiões nas paredes e um velho quadro. Teias de aranhas e poeira estavam em todas as partes, havia ainda duas passagens, a esquerda daria para escada circular que levaria para o segundo andar onde ficava o quarto e a da direita uma pequena cozinha com o necessário para sobreviver.
─Pelo estado do lugar e o cheiro acredito que você tem passado por muito tempo por aqui. ─disse o homem deixando seu pesado casaco de couro na cadeira, escorrendo a água sobre o piso de madeira. O homem se vestia com elegância duas camisas uma preta por baixo que davam nas luvas e por cima um colete vermelho, não usava gravata.
─O que esperava? Você desapareceu de uma hora para outra e simplesmente não devia deixar um imóvel em tão boa situação para os cães do governo não é?
─Bom estado? ─com um dedo ele empurrou a mesa que ficou balançando para cima e para baixo.
─Nada que uma boa reforma não adiante. Mas o que trás de volta?
O homem hesitou e por fim deu de ombros.
─Não sei ao certo, só senti que eu deveria retornar. E agora que retornei, eu tomo de volta o que é meu, ou você se opõe?
─HAA. Eu estou velho e caduco, não me oporia a você em tal situação, vai passar a noite aqui, eu presumo, a chuva está forte.
O homem pareceu hesitar, antes de concordar com a proposta.
─De acordo. Você sabe onde eu possa alugar um local para ficar?
─Claro por um preço você pode ter qualquer coisa. Vou lhe arrumar logo pela manhã. Mas é claro que vou precisar de um seguro contra sua pessoa e dinheiro vivo e corrente, não quero o seu ouro maldito.
“Judeu esperto. Pelo menos não terei lidar com você amanhã.” O homem começou a examinar a prateleiras e armários, na sala estavam vários livros deixados por toda a parte, na cozinha encontrou pouco alimento aproveitável para alimentação, lembrou-o de ir ao mercado no dia seguinte, ele sorriu ao pensar como seria que a população iria sentir ao vê-lo na cidade, ele fez um sanduíche com os ingredientes aproveitáveis e sentou para comer, o idoso pegou um bule e fez duas xícaras de chá, o cheiro era melhor do que o gosto, mas para uma noite fria serviria.
─Por que voltou a cidade? ─disse o velho.
─Quem sabe? Apenas senti que era a hora de voltar.
─Você tem certeza que já pode voltar? As pessoas aqui ainda não se esqueceram de você.
─Não posso fazer nada. Eu vou aonde tem trabalho a ser feito.
Um silêncio tomou conta do cômodo revelando que o homem havia falado mais do que devia.
─Trabalho? Não me diga que estamos correndo perigo. Eu sei que tipo de perigos você costuma atrair.
─Vocês?! Não me faça rir, essa cidade amaldiçoada já tem seus próprios problemas, que nem precisa de mim para piorar.
─Mas se me lembro bem, você piorou tudo, de maneira catastróficas. Foi por isso que os anciões expulsaram o da cidade.
─Vocês só veem os danos que eu fiz, ninguém sequer notou que praticamente limpei a cidade da presença deles?
─Não vou discutir os seus métodos com você essa noite, amanhã sim, mas hoje não. Por onde esteve por todos esses anos?
─Por aí, fui praticando a minha arte, estudando outras culturas e conhecendo pessoas. Claro que não sou bem vindo, minha profissão nunca é bem aceita, mas ainda sim necessária por esses dias.
─Quem dera que um dia você não seja mais útil.
─Mas me fale de você seu velho raquítico. Como está o seu negócio?
O idoso deu um seus sorrisos de alegria e começou a falar sem parar sobre as mercadorias, sobre as dívidas e sobre como a vida andava dando pequenas surpresas. O homem ouvia tudo o que o velho dizia, não por que se importava, mas por que mantinha a cabeça em outro lugar, longe da missão que o levara a regressar a cidade que o expulsou. Aos poucos o homem notou que o idoso se desviava do assunto principal, em uma pausa o homem disse:
─E Undine? Está bem?
O sorriso do velho desapareceu como se ele tivesse usado uma maldição.
─O que houve com ela?
─Não tenho certeza se eu devo contar.
─Como assim?! ─o homem se levantou colocando todo o peso de sua presença na sombra daquela velha criatura.
─Pode me ameaçar, você sabe que eu não tenho nada a perder.
─Você vai descobrir que tem muito a perder se for de em contra a mim, velho.
O velho bufou e se jogou em uma cadeira, nem barulho de ossos estralando foi suficiente para diminuir a tensão no cômodo.
─OK, você venceu. Eu sou apenas um velho raquítico e apodrecido pelos anos, a única coisa que espero é ter minha juventude de volta quando eu morrer, mas sei do seu potencial em desviar os caminhos das pessoas. Undine ficou desolada com a sua partida, seu pai a teve que trancar em um quarto sem nada que ferisse, e olha que ela tentou viu? Soube que todas as noites era uma batalha dentro da casa dos Flineraz.
Ouvi aquela narrativa acertava o homem com um peso no coração.
─Undine, então... ─continuou o velho, meio hesitante. ─Ela disse que a cidade pagaria por renegar você e fugiu para a floresta. Tentamos localizá-la, mas você sabe que mistérios encontram-se naquela floresta.
─Então ela está desaparecida na Floresta Proibida?
─Isso.
─E as criaturas que ali vivem?
─De vez em quando veem a cidade roubar nossas colheitas e fruto do nosso trabalho, mas nada fora do usual, de vez em quando passa um caçador por essas bandas, mas não conseguimos encontra-la.
─Você acha que ela... ─era difícil pronunciar tal coisa.
─Não sei, pivete, e se tem uma coisa é que eu sei é que as pessoas que se metem com a Floresta não voltam, bom tirando você, é claro.

O homem sentou pensando no que o velho tinha lhe dito. Seus pensamentos se encontraram com Undine, uma mulher de seu passado.

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