“30 minutos
ou menos” era o que dizia na caixa, um juramento e tanto que deveria ser
cumprido com o maior zelo. A pequena moto rasgava o trânsito e algumas vezes
levando retrovisores, na garupa da moto um motoboy com o visor espelhado, suas
roupas eram de puro couro negro, uma proteção contra o frio e chuva, atrás dele
uma caixa hermética onde eram guardadas as pizzas. Faltava ainda mais uns minutinhos
para chegar ao endereço marcado, ele acelerou ainda mais a moto que soltou um
rugido de potência e britas desprenderam do asfalto. Ali no meio da cidade, no
meio de tantos carros o motoboy seguia a doido pelo trânsito, seu lema? 30
minutos ou menos.
Logo a
frente uma bola de futebol apareceu rolando no asfalto, a criança idiota ainda
foi correndo para a pista sem olhar, ao seu lado um carro também corria, seria
impossível o velho fiesta branco parar antes de acertar a criança. O motoqueiro
puxou com uma mão uma caixa de pizza arremessou exatamente aonde a roda do
carro estaria a um milésimo de segundo na frente, a roda derrabou entortando em
seu eixo e o carro foi arremessado para o alto, o motoboy atirou um pedaço de
pizza em direção ao garoto, acertando em cheio na cara o fazendo cair de bunda
no chão. A moto passou direto, o garoto ficou a salvo e o carro estava
pendurado de cabeça para baixo a um metro do garotinho.
O motoboy
fez uma curva fechada para a direita e a roda traseira soltou uma leve nuvem de
fumaça antes de a moto desprender do chão e já ter sumido de vista. A moto e o
motoboy tremiam pela potência, mas nada do mundo o faria parar. 30 minutos ou
menos.
Finalmente
o endereço, agora era só subir o elevador. A moto entrou com tudo no saguão e
num giro de 570° entrou no elevador. O motoboy com o pé apertou o botão. As
portas foram fechadas. 30 minutos ou menos
No elevador
tocava uma música do fundo do mar. Os ombros do motoboy faziam ondas
acompanhando o som.
Andar
certo. A moto saiu e se dirigiu ao número 701 o primeiro ao lado do elevador.
Um ronco de moto e campainha fez uma senhora rechonchuda abrir a porta. Sua
cara era de espanto e dúvida. O motoboy puxou a caixa de pizza e o refrigerante
Zzzit de dentro da sacola e estendeu para a mulher.
Surpresa.
─É a minha
pizza? Faz menos de 10 minutos que eu liguei.
─30 minutos
ou menos.
A mulher
aturdida deu as costas para o motoboy mexeu na bolsa e voltou trazendo o
dinheiro. O motoboy conferiu as notas, guardou em um bolso interno e olhando
para a mulher através do visor espelhado disse:
─Obrigado
por ter escolhido esse maravilhoso alimento, o que seria humanidade sem esse
rico alimento. Ao comer certifique-se de rezar por ele absolutamente. E se a
fome bater, é só ligar para a gente.
O
motoboy acelerou e fez a moto dar uma volta de 180°, acelerou, fumaça e pedaços
do azulejo voaram para mulher e seu apartamento, o motoboy nem esperou
elevador, guinou sua moto direto pela escada de incêndio.
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